2026 e o seu RH ainda não é estratégico? A conta do adoecimento já está chegando

2026 e o seu RH ainda não é estratégico? A conta do adoecimento já está chegando

 Dados do INSS mostram avanço contínuo dos afastamentos por saúde mental e reforçam a pressão para que o RH assuma papel estratégico nas empresas

O Brasil registrou 534 mil afastamentos do trabalho por transtornos de saúde mental em 2025, o maior número da série histórica e o quinto ano consecutivo de alta, segundo dados do Ministério da Previdência Social e do INSS, com base nos auxílios-doença concedidos no período. Ansiedade, depressão e burnout lideram as causas, com impacto direto na produtividade, nos custos operacionais, na sinistralidade dos planos de saúde e na retenção de talentos.

Diante desse cenário, o RH deixou de ser apenas uma área administrativa e passou a ocupar uma posição central na gestão de riscos e resultados. Quando não atua de forma estratégica, com planejamento, dados e participação nas decisões do negócio, os efeitos aparecem em cadeia. Aumentam os afastamentos, cresce o turnover, lideranças ficam sobrecarregadas e a competitividade das empresas é comprometida.

A saúde mental deixou de ser um tema subjetivo ou apenas humano. Hoje, ela é um indicador claro de risco financeiro para as empresas”, afirma Jaqueline Becker, psicóloga, consultora e professora.

Quando o RH não senta à mesa, vira apagador de incêndios

Especialistas em gestão de pessoas alertam que a falta de clareza de prioridades por parte da liderança empurra o RH para uma atuação reativa. Sem planejamento e sem acesso às decisões estratégicas, a área passa a operar no curto prazo, lidando com urgências constantes, conflitos e crises internas.

Um RH que vive em modo emergência não consegue ser estratégico. Ele perde a capacidade de antecipar riscos e acaba apenas reagindo aos problemas quando eles já explodiram”, avalia Marie Bendelac, especialista em desenvolvimento humano e liderança.

Segundo ela, o estresse contínuo compromete não apenas a saúde das pessoas, mas também a qualidade das decisões. O excesso de pressão reduz empatia, criatividade e capacidade de análise, exatamente o que o RH precisa para atuar estrategicamente.

Estratégia não é discurso

Para as especialistas, ter um RH estratégico não significa adotar o termo no organograma ou no discurso institucional. Na prática, trata-se de participação efetiva nas decisões da empresa, entendimento do negócio e capacidade de conectar processos operacionais, como folha de pagamento, recrutamento, treinamento e saúde ocupacional, aos objetivos de longo prazo.

Muitas empresas dizem que o RH é estratégico, mas não o colocam na mesa de decisão. Estratégia sem participação real vira apenas discurso”, afirma Marie Bendelac.

Empresas que conseguem integrar o RH às decisões macro tendem a antecipar cenários de crescimento, retração, expansão ou sazonalidade, reduzindo riscos e custos. As que não conseguem seguem reagindo a problemas previsíveis, muitas vezes com impacto elevado.

Liderança como ponto de virada

Outro fator decisivo é a liderança. Mesmo em organizações com cultura estruturada, líderes despreparados emocionalmente podem inviabilizar a atuação estratégica do RH.

Um único líder pode comprometer toda uma estrutura. Lideranças que assediam, excluem ou se comunicam mal geram adoecimento, bloqueiam a produtividade e custam caro para a empresa”, afirma Marie.

Ao mesmo tempo, especialistas destacam que muitos gestores são tecnicamente excelentes, mas carecem de desenvolvimento em comunicação, escuta e gestão de pessoas. O problema não está no perfil técnico, mas na ausência de investimento no desenvolvimento emocional e relacional dessas lideranças.

Saúde mental entrou definitivamente na agenda do negócio

A atualização da NR-1 e a possibilidade de fiscalização a partir de maio reforçam um movimento que já estava em curso. A saúde mental passou a integrar a gestão de riscos corporativos.

Quando olhamos para afastamentos, sinistralidade, turnover e perda de talentos, estamos falando de impacto financeiro direto. Saúde mental hoje é tema de custo, não apenas de cuidado”, explica Jaqueline Becker.

Segundo ela, empresas que investiram em ações estruturadas de saúde física e mental já colhem resultados concretos, como a redução significativa dos custos com planos de saúde em curto prazo.

O RH também adoece

Um ponto sensível do debate é o próprio RH. Muitas empresas investem no desenvolvimento de líderes e equipes, mas não destinam orçamento nem ações para a saúde do time responsável por sustentar essas iniciativas.

O RH virou uma grande esponja emocional. Cuida de todo mundo, mas raramente é cuidado”, observa Marie Bendelac.

A discussão foi levantada durante o Employer Live, encontro promovido pela Employer Recursos Humanos, que reuniu profissionais de RH e especialistas para debater os impactos do adoecimento mental no trabalho e o futuro da área.

O alerta é claro. Não é mais possível chegar a 2026 com um RH restrito ao operacional. Em um cenário de adoecimento crescente, pressão por resultados e mudanças aceleradas no mundo do trabalho, o RH tornou-se peça central da sustentabilidade dos negócios, não por discurso, ma s por necessidade.

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